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O título pode parecer um trocadilho, entretanto, o que a princípio parece dissociado, na verdade mostra uma relação gutural, para não dizer simbiótica, isso quando a própria ciência for a arte ou a arte pura ciência.

O entendimento é o mesmo quando dizem que a vida imita a arte, mas a arte imita a vida, a arte traduz a vida, é impossível criar esta dissociação, a vida é uma arte! A busca pela identificação da sutil linha que separa a vida da arte é outra tarefa de Sísifo, uma busca eterna por algo que não existe.

Fui apresentado a esta relação entre arte e ciência em uma disciplina da Especialização em Divulgação e popularização da ciência oferecida pela Fiocruz. A expectativa inicial era aprender novas formas de utilizar a arte nas práticas de divulgação científica. Expectativa que se confirmou até a segunda aula, quando um momento epifânico conduzido pela professora Thelma Lopes nos conduziu para outra perspectiva, foi como se tivéssemos saído da plateia para as varandas do palco e depois levados ao urdimento. Tudo ficou muito claro, como poderia separar arte de ciência? Por este novo ângulo parece indissociável. É impressionante o mundo que se descortina na nossa frente pela simples mudança de perspectiva.

Ainda na idade média, a música tinha o status de ciência e compunha o “Quadrivium”, que significa “quatro caminhos”. As quatro artes matemáticas eram aritmética, música, geometria e astronomia. Faz sentido pra você?

– Manda um Dó menor, ou melhor uma nota de 65,41 Hertz, e vai subindo até 123,47 Hertz, um Sí.

Reprodução: João da Física

A relação científica não está somente nas escalas tonais que representam a vibração de um elemento em uma determinada frequência, medida em Hertz. Está também na própria construção do instrumento, nas proporções entre suas partes e nos seus mínimos detalhes, e ainda seguem ao longo de todo processo de produção musical.

Desde quando a ciência permitiu capturar a música em um disco de cera, a ambição de reproduzir a experiência de uma audição ao vivo não deixou a ciência em paz. Surgiram os conceitos de som estereofônico, depois o quadrifônico, surgiram sistemas com cinco pontos de emissão sonora! A qualidade de gravação e reprodução musical chegou níveis de excelência, mas a reprodução da experiência se tornoui possível quando neurocientistas decidiram estudar a forma como o cérebro interpreta os sons. Surgiu uma nova arte, ou melhor nova ciência da arte, a psicoacústica.

Os conceitos de psicoacústica ao entrarem na espiral da cultura científica possibilitaram à reprodução musical a característica tridimensional que tanto se buscava. Mas não vá acreditar que a ciência fez estas descobertas a partir do primoroso ”mundo do eterno saber”, a ciência não é um mundo a parte, é parte do mundo. Músicos e engenheiros de som descobriram diversos efeitos, a maioria por acaso, que foram estudados na nova disciplina que poderia ser chamada de ”quadrivium 2.0”: Física, neurologia, psicologia e música, mas é conhecida como psicofísica.

Quando você passa a entender esta relação, que é mais do que uma via de mão dupla, é uma relação “caórdica” entre diversas disciplinas, que se tornam ricas em possibilidades de explorar diversos possíveis adjacentes, fomentando a inovação e criatividade. Organismos multidisciplinares quando trabalhados por esta perspectiva podem produzir resultados transdisciplinares, onde nasce a inovação!

A medida que seguimos nesta conversa vamos ficando mais distantes daquele conceito limitado que dizia “cada um no seu quadrado”, já nem mais vemos o quadrado, estão todo pensando fora dele. Artes e ciências vistas por este ângulo parecem uma coisa só, um belíssimo organismo caórdico.

Este processo configura o que o linguista e poeta brasileiro Carlos Vogt em seu artigo “The spiral of scientific culture and cultural well-being” descreve como espiral da cultura científica.

Reprodução: Espiral da Cultura Científica VOGT (2012)

O primeiro ponto a observar é a característica em espiral, que significa se tratar de um processo cíclico e recursivo, e que tende a aprimorar a medida que completa novos ciclos.

O segundo ponto são os quatro quadrantes do modelo, que significam, na minha leitura, as “arenas” dos debates, cada uma com suas competências, linguajar e particularidades.

Tomando por exemplo um tema científico qualquer, é no primeiro quadrante que se dá a produção e difusão da ciência entre seus pares, ou seja os próprios cientistas são destinadores e destinatários da ciência. Isto acontece dentro da própria instituição científica, eventos científicos (congressos, seminários, etc) e publicações científicas.

No segundo quadrante, ensino de ciência e formação de cientistas é onde cientistas e professores são os destinadores a todos os níveis de estudantes destinatários. Isto pode acontecer dentro da própria instituição científica na relação entre bolsistas, estudantes e seus coordenadores e orientadores, e em universidades e escolas de formação científica, entre professores e alunos.

No terceiro quadrante encontramos o ensino para ciência, momento em que professores, cientistas e administradores de museus de ciência destinam ciência a estudantes e público jovem. Sala de aula, livros didáticos e espaços como museus e exposições compõem esta arena.

A divulgação científica se encontra no quarto quadrante, onde jornalistas especializados, professores e cientistas destinam informação científica para a sociedade em geral, em nichos específicos ou de forma abrangente. Basicamente qualquer espaço pode ser usado para este processo de popularização da ciência. É uma apropriação do divulgador científico de meios existentes e disponíveis. Por exemplo, um professor aposentado da USP criou um café temático, que tive o prazer de visitar e foi uma experiência imersiva muito interessante e estimulante.

Apesar do quarto quadrante indicar ser a divulgação científica, é importante compreender que ela se dá nos quatro quadrantes, em diferentes níveis de profundidade, limitadas pelas competências e particularidades dos seus atores emissores e receptores. E é ai que está a beleza do processo, uma dinâmica virtuosa, que retroalimenta através de todos os quadrantes, através da comunicação e ressignificação de seus conteúdos, potencializando de forma recursiva o tema científico que esteja em questão.

Quem já lecionou, sabe o quanto o ato de ensinar se configura numa aprendizagem, as diferentes expectativas e competências dos alunos acabam refletindo na forma de questionamentos ou reflexões que nos tiram da rota do ensinamento para a aprendizagem. É seguramente uma relação de aprimoramento tanto do destinador como do destinatário do saber.

No modelo da espiral da cultura científica podemos perceber este fluxo, o conhecimento científico fluindo no sentido horário e sua interpretação e reflexão fluindo no sentido anti horário. Isto consolida um modelo caórdico que permite situações interessantes e inusitadas, como por exemplo, a possibilidade de um questionamento ou a leitura de um receptor no quarto quadrante resultar numa incrível descoberta científica. Se juntarmos a serendipidade do evento com o possível adjacente esta é uma hipótese bem plausível, a depender apenas da eficiência do sistema de comunicação.

Algumas características deste sistema de comunicação estão representadas nos eixos dos quadrantes. O primeiro e o segundo quadrante, na parte inferior do eixo horizontal possuem uma comunicação “Esotérica”, ou seja reservada a grupos restritos, pela forma e conteúdo de suas mensagens. Já os terceiros e quarto quadrantes fazem uso de uma comunicação “Exotérica”, uma comunicação ampla, aberta e irrestrita. Percebe-se o quanto é importante adequar a comunicação ao público alvo.

Outro detalhe interessante está relacionado ao eixo vertical, do lado direito, onde situam-se o 1º e o 4º quadrantes temos um discurso polissêmico e polifônico, onde várias vozes se pronunciam de forma concomitante, é o discurso do debate e da conversa. No lado esquerdo, onde situam-se o 2º e 3º quadrantes, temos um discurso monossêmico e monofônico, onde um numero pequeno de emissores falam para um grupo de receptores, uma das características das aulas expositivas.

E interessante observar que os discursos polissêmico e monossêmico não são características exclusivas, mas dominantes em seus quadrantes. Podemos ter um discurso polissêmico em uma sala de aula invertida, e um discurso monossêmico em temas muito delicados ou complexos, onde o debate pode ser desmotivado.

O interessante disto tudo, para este projeto de divulgação científica, Vida Conectada, é a aplicação da espiral da cultura científica, no sentido de compreender os públicos alvo, e ajustar a comunicação. Considerando inclusive e principalmente o engajamento, fomentando o debate e motivando-os a buscar e requisitar mais informações pertinentes a este projeto, cujo tema visa elucidar a forma como as mediações algorítmicas das redes sociais podem influenciar o indivíduo e a sociedade.

Bibliografia

LOPES, T. Do fóssil ao fosso: Por que desaprendemos a dialogar? [s.l.]: Viveiros de Castro Editora Ltda, 2020. ISBN: 978-65-990652-1-7.

VOGT, C.; MORALES, A. P. Espiral, cultura e cultura científica. Com Ciência. 2017. Disponível em: <https://www.comciencia.br/espiral-cultura-e-cultura-cientifica/>. Acesso em: 05/jan./21.

VOGT, C. The spiral of scientific culture and cultural well-being: Brazil and Ibero-America. Public Understanding of Science, [s.l.], v. 21, no 1, p. 4–16, 2012. ISBN: 0963662511, ISSN: 09636625, DOI: 10.1177/0963662511420410.


João Carlos Rebello Caribé

Consultor em otimização empresarial, com foco em inovação estratégica, gestão do conhecimento, gestão de projetos e processos, e micropolítica corporativa. Professor em MBA em disciplinas das áreas de gestão Empresarial, Marketing, Logística e Recursos Humanos. Mestre em Ciência da Informação pela UFRJ (PPGCI) com o tema “Algoritmização das relações sociais, criação de crenças e construção da realidade”. Empreendedor desde o início de sua carreira, foi sócio em quatro empresas desde então. Com a chegada da Internet no Brasil no final dos anos 90, desenvolveu uma empresa revolucionária, a Flash Brasil, tornando-se referência com um modelo de negócios inovador envolvendo comunidades virtuais com milhares de profissionais. Foi conselheiro para o primeiro Conselho de Coordenação da NETmundial Initiative, junto com profissionais como Jack Ma (Alibaba), Christoph Steck (Telefonica), Penny Pritzker (Departamento de Estado Americano), James Poisant (WITSA), Lu Wei (Ministro do Ciberespaço Chinês), Jean-Jacques Subrenat (EURALO), dentre outros. Também foi membro do Comitê Executivo da NCUC na ICANN, representando a sociedade civil da América Latina e Caribe. Participa da Internet Society Brasil, Coalizão Direitos na Rede, Red Latam, Comunidade Diplo, Dynamic Coalition on Network Neutrality e Global Net Neutrality Coalition, Laboratório em Rede de Humanidades Digitais (LarHud) e Estudos Críticos em Informação, Tecnologia e Organização Social (Escritos).

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